Miúcha
A cantora Miúcha lançou no início de 2007 o CD “Outros Sonhos”. Nele, a intérprete carioca empresta sua bela voz à composições de três monstros sagrados da música brasileira: o irmão Chico Buarque (que participa da faixa “Chansong”), Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Confira o bate-papo que tivemos com ela.
JBFM: Por que escolheu Chico, Tom e Vinicius?
Miúcha: Bom, são os três autores mais presentes no meu repertório, tanto de discos quanto de shows. Então, eu acho que chegou a hora de focar o trabalho um pouco nas memórias que tenho deles. Aproveitei que o Chico (Buarque) estava fazendo músicas lindas e pedi uma música do “Carioca”, “Outros Sonhos”, que acabou dando nome ao CD. Enfim, é uma coisa muito afetiva também.
JBFM: Ficou algo de fora?
Miúcha: Sempre fica, né?! Eu privilegiei o repertório desse show que eu fazia, “Uma Cantora e Três Cariocas”, já usando Tom, Vinicius e Chico, mas durante o show, que durou mais ou menos um ano e meio, foram entrando várias músicas novas. Eu não tenho a pretensão de cantar melhor, nem fazer a gravação definitiva, mas sim de fazer com que as pessoas tenham um momento de alegria.
JBFM: Como aconteceu a participação do Chico em “Chansong”?
Miúcha: Foi muito engraçada. Essa música já é hilária. Eu acho que o Tom levou mais de dez anos para fazer essa música. São retalhos de casos que ele gostava de contar. O Tom tinha um humor quase surrealista. Ele fazia muita brincadeira com o fato de que nos Estados Unidos muita gente pensar que o seu primeiro nome era Joe e o apelido, Bim. Então, essa música fala dele chegando na imigração americana, morrendo de medo como todo brasileiro. Foi uma faixa deliciosa.
JBFM: Ele opinou sobre o repertório?
Miúcha: Ele sabia que eu estava escolhendo. Por exemplo, do último CD eu fiquei muito entre “Duro na Queda” e “Outros Sonhos”, duas músicas que eu tinha vontade de cantar. Achei que “Outros Sonhos” simbolizava melhor a idéia porque também tem músicas raras que você quase não ouve. “Desalento”, do Vinicius, quase ninguém conhece, ou “Quando Tu Passas por Mim” que foi uma das primeiras músicas dele. O Chico gravou a participação dele quando estava começando a temporada no Canecão e eu estava na dúvida se chamava ele ou se ia virar mais uma obrigação. Nessa ocasião, ele ouviu os arranjos, algumas ainda com voz guia e gostou muito das músicas dele. Pela cara, ficou agradavelmente surpreso.
JBFM: A inclusão de "Você Vai Ver" na novela “Paraíso Tropical” te pegou de surpresa?
Miúcha: Não, eu sabia. O Gilberto Braga, que é uma pessoa extraordinariamente musical, tinha ido ao meu show e gostado muito. Semanas depois, me chamou para um jantar pois estava querendo uma música desse repertório. E ele se fixou especialmente em “Você Vai Ver”, que a gente tinha acabado de gravar numa outra visão, só com violão, com João Lyra e Paulo Jobim. E o Gilberto disse que para entrar teria que ter um peso maior, alguma coisa a mais. Se não ficaria muito simples, já que a novela tem muita ação. Então, a gente chamou o Leandro (Braga) que botou um piano que só ele faz, o Paulo Braga, que é o baterista que mais gravou com Tom Jobim.
JBFM: Existe a idéia de lançar o CD no exterior?
Miúcha: Esse disco sim. Certamente.
JBFM: A quantas anda o projeto de um filme oTom?
Miúcha: O roteiro já está praticamente pronto. Eu já fiz um documentário com o Nelson (Pereira dos Santos) sobre o meu pai. Foi um prazer inenarrável trabalhar com o Nelson Pereira sobre o meu pai. Parecia que eu estava andando de mãos dadas com Freud sobre a obra do meu pai. Essa idéia é muito antiga, o Tom já tinha chamado o Nelson para fazer um filme sobre ele. A parte burocrática já terminou e o roteiro foi aprovado. Será um documentário em duas partes, nos moldes do que foi feito com o meu pai. Uma sobre a vida, com entrevistas com a irmã, a primeira esposa, Teresa Jobim e a segunda esposa, Ana, que é fotógrafa e tem um trabalho muito lindo ligado à parte ecológica do Tom. A segunda vai ser sobre a música dele.
JBFM: Se fosse gravar três compositores mais novos que você, quem escolheria?
Miúcha: Nossa, tem vários. Sou muito fã do Marcelo Camelo, do Rodrigo Amarante, do Kassin. Essa turma tem coisas muito, muito boas. As letras são absolutamente geniais, né!? Kassin é um gênio.
Por Julio Barbosa – Em maio/ 2007









